Engraxadores, profissão
em risco
Há não muitos anos, os engraxadores eram presença constante nas ruas de
qualquer cidade portuguesa.
Andar com sapatos bem engraxados fazia parte
das regras da boa conduta masculina e, ao contrário dos dias de hoje, poucas
eram as pessoas que tratavam dos seus próprios sapatos
Há uns anos, os clientes faziam fila
para poder dar brilho aos sapatos. A competição era
feroz, o que originava algumas brigas entre os clientes. Mas, numa coisa a
concorrência era leal: todos cobravam o mesmo preço por uma engraxadela aos
sapatos, ficando ao critério do freguês dar ou não gorjeta no final.
Este texto é baseado
num senhor chamado José Freitas, de 63 anos, que trabalhou durante 42 como
engraxador. E que deixou esta vida para se reformar.
Mas, passados alguns anos acho que voltou a tradição à cidade
de Portalegre, conta o engraxador Rui Pires, de 52 anos. Depois de alguns
anos parado, Rui Pires voltou a
engraxar os sapatos dos portalegrenses que ainda gostam que alguém lhes dê
brilho aos sapatos.
Agora, quem passa pela Rua do Comércio, junto à Pastelaria
Chique, não fica indiferente à pequena
“banquinha” que aqui se encontra. Este
foi o local escolhido por Rui Pires para aqui exercer a sua actividade de
engraxador, uma profissão que, ao
contrário de outros tempos, está em vias de extinção.
Contando com 52 anos, Rui Pires sempre gostou de dar brilho
aos sapatos. Prova disso é que, há vários anos, optou por ser engraxador. Junto
ao antigo Café Vitória cada ”engraxadela” custava 100 escudos que, nos dias que
correm, corresponde a 0,50 euros. Os clientes não faltavam e os engraxadores,
espalhados um pouco por toda a cidade, também não. Chegou mesmo a ser o
engraxador “oficial” dos jogadores do Desportivo.
No dias que correm, a situação é bem
diferente. Diminuíram os engraxadores e também os clientes, até porque a
maioria das pessoas usa sapatilhas ou sapatos que podem lustrar em casa.
Depois de alguns anos parado e de perceber que esta profissão
se estava a perder no tempo e também na sua cidade natal, pois nas ruas de
Portalegre apenas se encontrava um engraxador, Rui Pires resolveu retomar a
actividade.
Falando com o Rui, ele disse-me que
era um trabalho que gosta de fazer e que o vai entretendo, em vez de andar por
aí a beber “copos”, disse-me ele em tom de brincadeira.
Com “uma caixa nova” aguarda que os clientes apareçam. Como
já me conhecem, vêm sempre ter comigo quando precisam de dar brilho aos
sapatos, confessa. Por cada engraxadela, recebe 2 euros. Um preço “justo”, pois
os materiais também estão mais caros do que há alguns anos atrás.
Trabalho minucioso
Na semana passada, um dia ao final da manhã e enquanto eu
conversava com o Rui Pires, eis que chega um cliente. Interrompemos a conversa
pois os tempos não estão fáceis.
Rui Pires dá então início ao seu
trabalho depois de colocar “umas palmitas” para proteger as meias da graxa. Rui
Pires
começa por escovar os sapatos “para
tirar o pó”. O passo seguinte é passar a tinta e escovar.
Coloca depois a pomada e, finalmente, com um pano de camurça
puxa o lustro aos sapatos.
Dever cumprido. Em cerca de três minutos os sapatos baços que
chegaram às mãos de Rui Pires passaram a um reluzente par para satisfação,
sobretudo, do cliente. Afiançando a qualidade do material que utiliza, “todo adquirido no Sr.
Saldanha”, Rui Pires, que também vende tacões pretos e castanhos para sapatos,
revela alguns dos seus “segredos” para dar mais brilho e durabilidade ao
calçado. “Não uso tinta de água. Não presta. Amassa o sapato e ao outro dia
deixa-o branco. Tem de ser tinta creme e para as botas uso sebo”, confessa.
Garantindo que, normalmente, “os clientes ficam satisfeitos com o meu trabalho e
acabam por regressar”. Rui Pires afiança que as suas “engraxadelas” mantêm o
sapato em bom estado durante cerca de duas semanas. Ao fim desse período, os
clientes podem voltar ao cimo da Rua do Comércio, que Rui Pires estará lá para
dar novo brilho aos sapatos.
“Enquanto tiver saúde, é isto que
quero continuar a fazer”, concluiu.
Maria da Conceição Vivas
23-04-2009